terça-feira, 20 de agosto de 2013

Consolo na praia - Carlos Drummond de Andrade

Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizaram.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste em protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

Primeira vez - Bárbara M.

Na primeira vez, eu chorei de susto.
Na segunda, chorei de dor.
Na terceira, chorei porque meu pai e minha mãe não notaram.
Na quarta vez que chorei, foi porque percebi que eles não davam a menor bola.
Na quinta, chorei de pena de mim mesma.
E na sexta vez... desisti de chorar.